Acidente Radioativo com Césio-137 de Goiania

Autores: Dilermando Mendes/ Thainá Melo / Juliane de Sá / Rosana Guimaraes /Felipe Rosário

RESUMO

O Césio-137, isótopo radioativo artificial do Césio, tem comportamento, no ambiente, semelhante ao do potássio e outros metais alcalinos, podendo ser concentrado em animais e plantas. Sua meia vida é de 30 anos. Com a violação do equipamento, foram espalhados no meio ambiente. Isto provocou a contaminação de diversos locais, especificamente naqueles onde houve manipulação do material e para onde foram levadas as várias partes do aparelho de radioterapia. Por conter chumbo e metal, materiais de algum valor financeiro, a fonte foi vendida para um depósito de ferro-velho, onde também se comercializava materiais recicláveis. O dono deste estabelecimento a repassou a outros dois depósitos, além de distribuir o material radioativo a parentes e amigos, por chamar a atenção pelo seu brilho magnetizante de cor azul, também foram dispersados através de circulação de animais, ventos, chuvas, ocasionando contaminação identificada em sete áreas como focos principais e as medidas radiométricas desses locais, determinaram o imediato isolamento. Contudo milhares de pessoas foram exposta a radiação, algumas delas foram medicadas e os sintomas foram revertidos, entretanto 49 pessoas foram internadas e dessas, 21 passaram por um tratamento intensivo, sendo que 4 não sobreviveram. Houve a necessidade de realizar a descontaminação, gerando 6000 toneladas de lixo radioativo.

INTRODUÇÃO

No centro da cidade de Goiânia, funcionava o Instituto Goiano de Radiologia (IGR) em um terreno emprestado pela Sociedade São Vicente de Paulo (SSVP) desde 1972, e como “pagamento” deveria realizar exames gratuitos aos pacientes da Santa Casa de misericórdia de Goiânia, sob a administração daquela sociedade.
Em 1984 este terreno foi vendido para o Instituto de Previdência e Assistência do estado de Goiás (Ipasgo), assim em 1985 o Instituto Goiano de Radiologia mudou de endereço deixando para trás os mobiliários e equipamentos antigos, entre eles estava um aparelho radiológico contendo uma cápsula de césio-137.
Em maio de 1987, o novo proprietário iniciou a demolição do prédio, deixando o local em ruínas, sem portas ou janelas e invadido pelo mato, onde abrigava a cápsula de césio-137. Nesses 3 anos de 1985 à 1987 a cápsula não fora objeto de nenhum ato de fiscalização da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEM).
Em 13 de setembro de 1987 aconteceu o trágico acidente com o Césio-137 (137Cs) em Goiânia, capital do Estado de Goiás, Brasil. O manuseio do aparelho de radioterapia abandonado, gerou um acidente que envolveu direta e indiretamente centenas de pessoas. A fonte, com radioatividade de 50.9 Tbq (1375 Ci) continha cloreto de césio, composto químico de alta solubilidade, contaminando milhares de pessoas, animais e meio ambiente.

DESENVOLVIMENTO

A curiosidade de dois catadores de lixo e a falta de informação foram fatores que deram espaço ao ocorrido. Ao vasculharem as antigas instalações do Instituto Goiano de Radioterapia (também conhecido como Santa Casa de Misericórdia), no centro de Goiânia, tais homens depararam-se com um aparelho de radioterapia abandonado e removeram a máquina com a ajuda de um carrinho de mão.
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Eles levaram o equipamento até a casa de um deles. Interessados no lucro que seria obtido com a venda das partes de metal e chumbo do aparelho, leigos no assunto, não tinham a menor noção do que era aquela máquina e o que havia realmente em seu interior. Após retirarem as peças de seu interesse, o que levou cerca de cinco dias, venderam o que restou ao proprietário de um  ferro-velho.

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O dono do estabelecimento era Devair Alves Ferreira, que, ao desmontar a máquina, expôs ao ambiente 19,26 g de cloreto de césio-137 (CsCl), um pó branco parecido com     sal     de     cozinha que, no     escuro   brilha     com     uma     coloração     azul.

O Césio-137 é um isótopo radioativo artificial do Césio, tem comportamento, no ambiente, semelhante ao do potássio e outros metais alcalinos, podendo ser concentrado em animais e plantas. Sua meia vida física é de 30 anos. Com a violação do equipamento, foram espalhados no meio ambiente vários fragmentos de 137Cs, na forma de um sólido de cor azul, sem brilho durante o dia, porém no escuro, emitia brilho forte e magnetizante. Isto provocou a contaminação de diversos locais, especificamente naqueles onde houve manipulação do material e para onde foram levadas as várias partes do aparelho de radioterapia. Por conter chumbo e metal, materiais de algum valor financeiro, a fonte foi vendida para um depósito de ferro-velho, onde também se comercializavam materiais recicláveis. O dono deste estabelecimento a repassou a outros dois depósitos, além de distribuir os fragmentos do material radioativo a parentes e amigos.  Estes, por suas vezes, também   levaram os fragmentos para suas casas.

Ele se encantou com o brilho azul emitido pela substância e resolveu exibir o achado a seus familiares, amigos e parte da vizinhança. Todos acreditavam estar diante de algo sobrenatural e alguns até levaram amostras para casa. A exibição do pó fluorescente ocorreu durante quatro dias, e a área de risco aumentou, pois, parte do equipamento de radioterapia também foi para outro ferro-velho, espalhando ainda mais o material radioativo.

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No dia 29 de setembro de 1987 a esposa do dono do depósito de ferro-velho, suspeitando que aquele material tivesse relação com o mal-estar que se abateu sobre sua família, levou a peça para a Divisão de Vigilância Sanitária da Secretaria Estadual de Saúde, onde finalmente o material foi identificado como radioativo.

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Devido às características do acidente de Goiânia, as vias potenciais de exposição da população à radiação foram: Inalação de material, ingestão de frutas, verduras e contaminação de animais domésticos e irradiação externa devido ao material depositado no ambiente.

A fonte radioativa foi removida e manipulada no dia 13 de setembro, porém o acidente radioativo só foi identificado como tal no dia 29 do mesmo mês, quando foi feita a comunicação à Comissão Nacional de Energia Nuclear –CNEN, que notificou a Agência Internacional de Energia Atômica –AIEA. Foi acionado um plano de emergência do qual participaram CNEN, Furnas Centrais Elétricas S/A –FURNAS, Empresas Nucleares Brasileiras S/A

-NUCLEBRÁS, DEFESA CIVIL, ala de emergência nuclear do Hospital Naval Marcílio Dias – HNMD, Organização de Saúde do Estado de Goiás- OSEGO (atualmente Secretaria Estadual de Saúde de Goiás – SES/GO), Hospital Geral de Goiânia –HGG, além de outras instituições locais, nacionais e internacionais que se incorporaram ou auxiliaram a “Operação Césio-137”.

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Os médicos que receberam o equipamento solicitaram a presença de um físico nuclear para avaliar o acidente. Foi então que o físico Valter Mendes, de Goiânia, constatou que havia índices de radiação na Rua 57, do Setor Aeroporto, bem como nas suas imediações. Diante de tais evidências e do perigo que elas representavam, ele acionou imediatamente a Comissão Nacional Nuclear (CNEN).

          O ocorrido foi informado ao chefe do Departamento de Instalações Nucleares, José Júlio Rosenthal, que se dirigiu no mesmo dia para Goiânia. No dia seguinte, a equipe foi reforçada pela presença do médico Alexandre Rodrigues de Oliveira, da Nuclebrás (atualmente, Indústrias Nucleares do Brasil) e do médico Carlos Brandão da CNEN. Nesse momento, a Secretaria de Saúde do estado começou a realizar a triagem dos suspeitos de contaminação em um estádio de futebol da capital.

IMPACTOS SOCIAIS E MEIO AMBIENTE

A primeira medida tomada foi separar todas as roupas das pessoas expostas ao material radioativo e lavá-las com água e sabão para a descontaminação externa. Após esse procedimento, as pessoas tomaram um quelante denominado de “azul da Prússia”. Tal substância elimina os efeitos da radiação, fazendo com que as partículas de césio saiam do organismo pela da urina e fezes.

As áreas consideradas como focos principais de contaminação foram isoladas e iniciou-se a triagem de pessoas no Estádio Olímpico. A descontaminação dos focos principais foi feita removendo-se grandes quantidades de solo e de construções que foram demolidas. Ao mesmo tempo era realizada a monitoração para quantificar a dispersão do cesio-137 no ambiente, além de análise de solo, vegetais, água e ar.

Foram   identificados   e   isolados   sete   focos principais, onde   houve   a contaminação de pessoas e do ambiente e onde havia altas taxas de exposição. No total, foram monitoradas 112.800 pessoas. Dentre elas, em 6.500 constatou-se algum grau de irradiação e em 249 verificou-se significativa contaminação interna e/ou externa. Todavia, isso não foram suficientes para evitar que alguns pacientes viessem a óbito. Entre as vítimas fatais, podemos citar a menina Leide das Neves, seu pai Ivo, Devair e sua esposa, Maria Gabriela, e dois funcionários do ferro-velho. Posteriormente, mais pessoas morreram vítimas da contaminação com o material radioativo, entre eles funcionários que realizaram a limpeza do local.

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O trabalho de descontaminação dos locais atingidos não foi fácil. A retirada de todo o material contaminado com o césio-137 rendeu cerca de 6000 toneladas de lixo (roupas, utensílios, materiais de construção etc.). Tais lixos radioativos encontram-se confinados em 1.200 caixas, 2.900 tambores e 14 contêineres (revestidos com concreto e aço) em um depósito construído na cidade de Abadia de Goiás, onde deve ficar por aproximadamente 180 anos.

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Os 129 que constituíam o grupo com contaminação interna e/ou externa passaram a receber acompanhamento médico regular. Destes, 79 com contaminação externa receberam tratamento ambulatorial.  Dos   50 radio-acidentados restantes, cuja contaminação interna foi comprovada, 30 foram assistidos em albergues; 20 foram encaminhados ao Hospital Geral de Goiânia. Destes últimos, 14 em estado grave foram transferidos para o Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, oito evoluíram para a Síndrome Aguda da Radiação -SAR, 14 apresentaram falência da medula óssea e 01 sofreu amputação do antebraço, quatro deles foram a óbito. No total, 28 pessoas desenvolveram em maior ou menor intensidade, a Síndrome Cutânea da Radiação (as lesões cutâneas também eram ditas “radio-dermatites”).  Os casos de óbito ocorreram cerca de 04 a 05 semanas após a exposição ao material radioativo, devido a complicações, como hemorragia (02 pacientes) e infecção generalizada (02 pacientes).

Somente no final dos anos 90, a região começou a passar uma imagem menos “assustadora” para os novos inquilinos, através de ações do governo municipal e estadual para a revitalização da região, revalorizando as casas que estavam nas mediações do acidente. Em questão de poucos anos, o valor das casas da região central já era entre duas a três vezes maior do que na época do acidente. No início de 2006, a prefeitura municipal de Goiânia resolveu revitalizar o antigo Mercado Popular, sendo reinaugurado em novembro de 2006 com a edição 2007 da Casa Cor Goiás, com a presença de autoridades municipais e estaduais. Em fevereiro de 2007, o Mercado Popular passou a ser um ponto turístico da cidade, por possuir uma feira gastronômica todas as sextas-feiras à noite, sempre acompanhada de música ao vivo. Aos poucos, a região atingida pelo acidente vem sendo valorizada, aumentando o interesse de grandes empreiteiras construírem prédios de luxo, onde antes eram apenas casebres abandonado.

DESTINOS DE RESÍDUOS CONTAMINADOS

O repositório definitivo deste material localiza-se na cidade de Abadia de Goiás, a 23 km de Goiânia, onde a CNEN instalou o Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste, que executa a monitoração dos rejeitos radioativos e controle ambiental.

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Para executar o monitoramento sobre os efeitos da exposição à radiação ionizante nas pessoas que foram vítimas deste acidente, o governo do Estado de Goiás criou, em fevereiro de 1988, a Fundação Leide das Neves Ferreira, posteriormente transformada em Superintendência Leide das Neves Ferreira – SULEIDE. Foram definidos grupos de pacientes, de acordo com normas internacionais, que consideram como critérios de classificação a gravidade das lesões cutâneas e a intensidade da contaminação interna e externa, e que determinou a metodologia dos protocolos de acompanhamento médico.

Os cálculos de dose das pessoas foram feitos com base nos resultados dos exames de dosimetria cito genética, para avaliação da exposição externa; e de análise de excretas e contador de corpo inteiro para avaliação da contaminação interna. Pela técnica de dosimetria cito genética estima-se a dose recebida através de aberrações cromossomos causados pela radiação. A dose estimada é proporcional ao número de aberrações existentes.   A técnica de análise de excretas é chamada de monitoração in vitro e a de contador de corpo inteiro – detectores de radiação são colocados próximos ao corpo e inferem a quantidade de material radioativo incorporado e subsequentemente a dose – monitoração in vivo.

Das várias lições aprendidas neste acidente, podemos nos referir àquela que trata da nossa responsabilidade em conhecer as consequências de se lidar com ciência e tecnologia, e ampliarmos os cuidados que priorizam a ética e o respeito à vida.

Punições aos culpados e assistência às vítimas

No ano de 1996, a Justiça julgou e condenou por homicídio culposo (quando não há intenção de matar) três sócios e funcionários do antigo Instituto Goiano de Radioterapia (Santa Casa de Misericórdia) a três anos e dois meses de prisão, pena que foi substituída por prestação de serviços.

Atualmente, as vítimas reclamam da omissão do governo para a assistência tanto médica como de medicamentos.  Para tentar resolver a situação, eles fundaram a associação de Vítimas Contaminadas por Césio-137 e lutam contra o preconceito ainda existente.

CONCLUSÃO

O acidente com o césio 137, foi trágico, porém serviu de alerta para gerações futuras sobre a utilização de materiais radioativos e a devida preocupação que o manuseio requer, pois até aquele momento nada se sabia sobre materiais radioativos. Esta tragédia poderia ter sido evitada, se as autoridades competentes agissem com fiscalização e eficácia desde o momento da demolição do prédio do Instituto Goiano de Radiologia. Deste modo podemos concluir que após o acidente, houve uma mudança no comportamento das autoridades competentes, criando planos de administração em caso de acidentes severos, critérios e intervenção, procedimentos de emergência, comunicação, tratamento médico das pessoas irradiadas.

REFERÊNCIAS

http://www.iaea.org/inis/collection/NCLCollectionStore/_Public/19/076/19076677.pdf

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